José Bernardino Borges Sobrinho – Zizi (1928–2026): um legado de trabalho, ética e fé que moldou vidas e uma cidade

Fev 5, 2026 - 20:02
Fev 24, 2026 - 10:30
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José Bernardino Borges Sobrinho – Zizi (1928–2026):  um legado de trabalho, ética e fé que moldou vidas e uma cidade

José Bernardino Borges Sobrinho – Zizi (1928–2026): 
um legado de trabalho, ética e fé que moldou vidas e uma cidade

José Bernardino Borges Sobrinho - Zizi - nasceu em 8 de novembro de 1928, no povoado de Leal, zona rural do Município de Patos de Minas. Partiu em 19 de janeiro de 2026, aos 97 anos, deixando uma cidade mais abastecida de afetos do que de bens materiais: lembranças de presença, de gentileza, de ética, de trabalho diário e de uma fé simples, feita mais de gesto do que de discurso.
Falar do nosso querido e inesquecível Zizi é, antes, tocar na longa corrente de uma história familiar que atravessa o tempo em Patos de Minas. A família Borges, oriunda de Formiga/MG, lembrada entre as mais tradicionais do Município, firmou-se ao longo das gerações por uma combinação rara de religiosidade, princípios e serviço público e comunitário. Os Borges se destacaram em cenários diversos - político, econômico, jurídico, social e cultural e, desde o século XIX, ajudaram a forjar os valores e o espírito público da cidade, contribuindo para a formação ética e do senso de coletividade. A marca dessa linhagem não era apenas o sobrenome, mas um certo modo de estar no mundo: sobriedade, palavra empenhada, ética como hábito, fé como alicerce.


Zizi foi filho de Dona Serafina Borges e de Nadico Borges, integrando uma família numerosa, composta por onze irmãos. Ainda criança, mudou-se para a fazenda Chapadão das Posses, perto de Leal, aprendendo a vida nos quintais, nas cercas, nas pequenas tarefas que dão à infância rural uma espécie de responsabilidade silenciosa. Estudou primeiro “na roça”, com professor contratado; depois, seguiu para Presidente Olegário e, em seguida, para Patos de Minas, na famosa escola de Dona Madalena de Melo. Mais tarde, fez o internato no Ginásio Municipal de Patos (onde se localiza o CNSG), dirigido pelo professor Anair Santana - anos de disciplina, regras rígidas, rezas discretas, e também as “farras” inevitáveis de meninos que, quando o olhar do adulto se afastava, descobriam a liberdade nos travesseiros arremessados e nas risadas escondidas.
A adolescência de Zizi, como a de tantos brasileiros de sua geração, foi atravessada por um acontecimento que muda o rumo das coisas: a morte do pai, em 22 de julho 1944, aos 42 anos, quando ele ainda não tinha completado 16 anos. Serafina ficou viúva com dez filhos, e o sonho de estudos fora de Patos de Minas tornou-se pesado demais para caber na realidade financeira daquele tempo. Foi então que Zizi “passou para o lado de dentro” da vida adulta; não por pressa, mas por necessidade. E é nesse ponto que sua história se confunde com um verbo que o acompanharia até o fim: trabalhar.


Começou cedo como vendedor; aos dezoito anos, já tomava conta de loja, sempre atendendo o cliente com o sorriso largo. Seu aprendizado não foi feito em livros de teoria, mas no comércio vivido: no balcão, nos estoques, na conta feita à mão, no nome do freguês lembrado com precisão. Entrou na Casa Dragão e ali permaneceu por cerca de 15 anos, começando como “boy” e progredindo, com esforço e economia, até assumir mais responsabilidades; com um prêmio de loteria e a venda de um lote, tornou-se sócio entre 1956 e 1958. Quem o viu nesse tempo, viu nascer um comerciante que não se impunha pela voz, mas pela constância; não pelo brilho do marketing, mas pela confiança.


E foi nesse percurso que a vida lhe ofereceu o encontro que faria dele não apenas um comerciante, mas um homem de família: Ana de Deus Borges, a Nicota, da tradicional família Deus Vieira, de Carmo do Paranaíba. Eles se conheceram numa época em que o namoro tinha passos marcados: aproximação, conversa, tempo, noivado, e só depois o casamento. O “oficial” da memória familiar ficou guardado naquele réveillon, na Sociedade Recreativa Patense, na virada de 1950 para 1951, quando, como ele mesmo dizia, foi “amor à primeira vista”. Casaram-se em 20 de maio de 1955. E, a partir daí, Zizi nunca esteve sozinho na construção do que viria: Nicota foi parceira de vida e de obra.
Com Nicota, Zizi teve oito filhos - quatro homens e quatro mulheres: Gilmar, Julieta, Ana Maria, Giovani, Carmen Lúcia, Gilson, Luís Alberto (Beto) e Cássia. Mais tarde, todos os oito filhos fariam cursos de graduação, respectivamente, em Gestão Comercial, Arquitetura, Odontologia, Engenharia Civil, Medicina, Engenharia, Geologia e Arquitetura, um feito que Zizi e Nicota valorizavam como quem entende que estudo é estrada: com estudo, a vida pode não ficar fácil, mas fica mais possível.


O empreendedorismo de Zizi começou como começam as coisas sólidas: pequeno, mas inteiro. Em fevereiro de 1958, fundou em Lagoa Formosa a sua primeira loja - a Casa do Zizi - uma loja “de quase tudo”, como eram as grandes casas comerciais do interior: tecidos, confecções, armarinhos, utensílios, ferragens, ferramentas, artigos de alumínio, perfumaria e muito mais. Ali, o comércio cresceu, não apenas por variedade, mas por reputação. E Nicota, com gosto apurado e coragem de viagem, assumiu o papel que tantas vezes passa despercebido nas histórias de sucesso: o trabalho invisível da mulher que compra, escolhe, acerta, negocia, retorna, atende, conversa. Ela era, como o próprio Zizi reconhecia, o braço direito. “Eu era mais tímido, ela conversava mais”. E, assim, os dois fizeram do negócio uma extensão do lar - e do lar, uma escola de valores.


Em 1973, Zizi abriu a primeira loja em Patos de Minas, na rua Padre Caldeira, em pleno período da Fenamilho. A loja nasceu em época boa e cresceu mesmo em tempos difíceis. O Brasil atravessaria crises, planos econômicos, instabilidades; mas o Grupo Zizi - sustentado por trabalho e criatividade - ampliou-se, consolidou-se e diversificou-se, sempre com uma característica que o próprio povo notava: o atendimento que respeita, o comércio que não humilha, a venda que não engana. Em 1976, veio a unidade na Avenida Brasil; depois, outras frentes: lojas especializadas, hotelaria e restaurante. O crescimento, contudo, nunca apagou a origem. Zizi permaneceu aquele homem que sabia o valor de cada detalhe e o nome de cada pessoa.
Fiel a esse modo de agir, Zizi sempre fez questão de reconhecer o papel fundamental de seus colaboradores, entendendo que o crescimento do grupo foi, acima de tudo, uma construção coletiva. Pessoas como a Maura, que em março completará 50 anos de trabalho na loja da Avenida Brasil, simbolizam essa história, feita de lealdade, dedicação e confiança mútua - valores que ajudaram a transformar cada loja em mais do que um ponto de venda, mas em um espaço de relações humanas duradouras.


E a cidade reconheceu. Homenagens do poder público, da Câmara Municipal e de entidades de classe, como a CDL, destacaram o Grupo Zizi como parceiro do desenvolvimento socioeconômico, gerador de empregos e agente de cidadania - um reconhecimento formal para algo que, na prática, o povo já dizia: que ali existia trabalho que produzia dignidade. Ao lado dessas honrarias, vieram também as homenagens à Nicota (27/8/1930 + 11/12/2014), símbolo de força, presença e compromisso social. Porque, no fundo, quando se fala em Zizi, fala-se inevitavelmente do casal: uma parceria que foi família, empresa e comunidade ao mesmo tempo.
Mas há uma dimensão de Zizi que não cabe em decretos nem em números: a fé. Sua religiosidade não era ornamento, era fonte. Não era uma fé de discurso elaborado, e sim uma fé “de dentro para fora”, como seu filho Beto descreveu: uma confiança inocente, natural, que se expressava mais como gesto do que como explicação. Zizi viveu ligado a obras de caridade, às conferências vicentinas, ao Dispensário São Vicente de Paulo e à Vila Padre Alaor (onde atuou como presidente e voluntário) - lugares onde a pobreza tem rosto, nome e necessidade concreta. Ele não fazia caridade para ser visto; fazia como quem coloca tijolos na construção do invisível. E repetia, com alegria quase infantil, uma frase que virou síntese de vida: “vamos arrumar os tijolinhos para construir nossa casa no céu.” Para ele, ajudar alguém era isto: um tijolo a mais numa morada que não se compra com dinheiro.


Nas mensagens publicadas no site Saudosismo Patense por ocasião de sua morte (mais de 400 comentários) - muitas, numerosas, repetindo-se como um coral espontâneo - apareceu um retrato coletivo: um homem lembrado pela humildade, pelo sorriso fácil, pela honestidade e pelo respeito com que tratava qualquer pessoa. Amigos falaram de sua mansidão e sua retidão; outros recordaram a generosidade sem alarde, o jeito de conversar, a capacidade rara de fazer amizade “com todo mundo, seja quem for”. Houve quem resumisse a presença dele numa palavra: exemplo. E houve também o reconhecimento de que seu trabalho não ficou apenas nas vitrines - ficou nas vidas, nas oportunidades dadas, nos empregos criados, nos gestos de cuidado com quem precisava.
Os filhos, ao falarem do pai, tocaram exatamente neste ponto: o legado que não depende do tamanho da empresa, mas da qualidade do coração. Beto destacou a força da amizade como traço mais marcante de Zizi - a alegria, a inocência, a retidão, e essa capacidade “absurda” de criar laços. Disse, com lucidez, que o lado empresarial existia, mas que não era o mais definidor: Zizi foi mais “mantenedor” do processo, homem de rotina e perseverança até os 95–96 anos, do que um personagem de vaidade econômica. E quando falou da fé, descreveu-a como beleza rara: uma fé não “consciencial” nem calculada, mas íntima, que virava mão estendida, bênção oferecida, cuidado constante.


Gilmar, por sua vez, trouxe imagens que iluminam o caráter do pai: a honestidade como marca, o respeito como regra - especialmente na relação entre pai e primogênito. Recordou também a generosidade prática: o jeito de permitir que outros trabalhassem, mesmo quando isso não era conveniente; o gesto de não “tirar” os pequenos, porque “o sol nasceu para todos”. E, ao falar do vínculo comunitário, mostrou o Zizi discreto, que não buscava cargos por vaidade, mas se orgulhava do serviço aos pobres - como confrade vicentino, como voluntário, como alguém que entendia que a contabilidade de verdade é a do bem que se faz.
Zizi envelheceu sem perder o essencial. Mesmo quando a audição se foi, não se deixou entristecer; aprendeu leitura labial, continuou comunicativo, sorridente, brincalhão - como se a alegria fosse também uma forma de caridade. E partiu em casa, aos 97 anos, cercado por filhos, netos, familiares e pelos amigos de sempre, como quem fecha os olhos no lugar onde a vida foi mais verdadeira.


Há pessoas que passam e deixam saudade. E há pessoas que, além da saudade, deixam um jeito de viver que vira referência. Zizi pertence a essa segunda categoria: fez da própria existência um tear paciente - entrelaçou trabalho com ética, fé com simplicidade, rotina com generosidade, família com comunidade. Em Lagoa Formosa e Patos de Minas, seu nome não é apenas lembrança; é uma espécie de ponto fixo. Quando se fala de honestidade no comércio, fala-se dele; quando se fala de amizade que atravessa classes e tempos, fala-se dele; quando se fala de caridade vicentina que não faz barulho, fala-se dele.
E talvez seja essa a melhor biografia possível: a de um homem que, sem precisar levantar a voz, conseguiu ser ouvido por uma cidade inteira - não pelos ouvidos, mas pelo coração.

Professor Altamir Fernandes de Sousa

Mensagem de Agradecimentos da Família Zizi

A nossa família permanece unida pelo amor e pela saudade, guardando na memória a presença de um grande homem, cuja vida foi guiada pelo trabalho, pela ética e pela fé. Seu legado, marcado pela honra, pela generosidade, pelo amor ao próximo e pela caridade vicentina, perpetuar-se-á em nossa história como uma luz que não se apaga, inspirando-nos a seguir seus ensinamentos e valores.
A família Zizi agradece, de forma profunda e sincera, a todos que estiveram presentes no velório, aos que enviaram coroas de flores, mensagens de condolências e palavras de conforto, bem como àqueles que, mesmo à distância, manifestaram seu carinho e solidariedade por meio das redes sociais, telefonemas e orações. Cada gesto, por menor que pareça, foi acolhido como um sinal de afeto e cuidado, trazendo conforto em um momento de dor e recolhimento.
Somos imensamente gratos pelas demonstrações de amizade, pela presença silenciosa, pelos abraços, pelas lembranças compartilhadas e pelo apoio dedicado a este pai, avô e amigo, que transmitia serenidade, bondade e alegria por meio de seu sorriso e de sua postura sempre acolhedora. O amparo recebido reafirma a força dos laços humanos e a importância da união nos momentos mais difíceis, fortalecendo-nos para seguir adiante com gratidão, fé e esperança. 
Muito obrigado a todos.

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